quarta-feira, 4 de março de 2009

MEU AMIGO ESTÁ ERRADO


Amigo meu de longa data e esporádicos encontros surpreeendeu-me dia desses. Estávamos nós a conversar amenidades e, de repente, não sei quem inseriu o tema e também não importa, passamos a discutir a parcialidade, as distorções deliberadas, as informações incompletas, as análises sob medida com fins inconfessáveis e outras tantas mazelas de larga utilização na imprensa, pelo menos daquela classificada como grande. É sabido e conhecido que alguns veículos de comunicação (impressos, televisivos, radiofônicos ou digitais), certamente a maioria, se prestam a desempenhar o papel que seus patrocinadores decidem. E isso é feito às claras, sem subterfúgios. Caso decidisse exemplificar afianço-lhes que poderia dispor de milhares de casos. No momento não o farei por questões de higiene. Sendo assim é imprescindível que todos nós ao recebermos qualquer informação cuidarmos de verificá-la para que possemos processá-la. Caso contrário corremos o sério risco de fazermos juízo de valor baseado em informações maltrapilhas. Filtrar a informação e confrontá-la é indispensável para não absorvermos as baboseiras que despejam por ai. Dentro de minhas limitações sempre agi desta maneira, mesmo porque não conheço quem quer que seja que goste de ser enganado, exceto aqueles que possam levar alguma vantagem nisso.


Não se constitui novidade alguma minha acidez quando se trata do dinheiro público. Não há como negociar comigo uma crítica menos contundente diante da malversação, desvio, desperdício e da conhecida e nefasta corrupção entranhada em todos os governos de todos os tempos, mas isso não isenta o governo petista ou de qualquer outra sopinha de letras destas asquerosas práticas. Em nossa conversa abordamos a atuação do BNDES, um santuário para as mais escabrosas maracutaias desde sempre. Segundo meu amigo alguns textos que produzi e fiz publicar neste espaço abordando a infinita bondade do banco estatal com empresários e pseudo-empresários, políticos e banqueiros e sua incontestável vocação para desperdiçar recursos públicos revela apenas um lado. O lado podre. Mas, pergunto, será que esta instituição ou qualquer outra foi criada para ter dois lados? Certamente que não. Não se trata, portanto, fazer abordagens seletivas, focar desmandos e outras bandalheiras, pois, é uma obrigação o bom funcionamento do Estado e quando isso não acontece é essencial que se denuncie e se exiga as reparações devidas sistematicamente. Não vejo mérito algum no agente público gabar-se de sua lisura no trato da coisa pública. Honestidade não é uma virtude do ser humano e sim uma obrigação. Informou-me, naquela ocasião, que a imprensa fez um escarcéu quando o presidente do Equador anunciou em alto e bom som que daria um calote no Brasil e tal não aconteceu. Muito bem. Que favor terá nos feito? Nenhum. Um contrato foi celebrado onde estavam definidos direitos e deveres aceitos por ambas as partes. Então não vejo razão alguma para contestar a dívida e, caso uma das partes levante quaisquer dúvidas, sempre haverá as instâncias competentes e eleitas para dirimi-las. Posso concluir que meu prezado amigo, por razões outras e sem fazer qualquer menção num retumbante equívoco, colocou-me naquela posição do “hay gobierno? Hay, pero que so contra”. Senti-me rotulado. Lamentei profundamente que tenha tido a intenção de ter-me em conta como um rebelde inconseqüente, um contestador inveterado, um inconformado ou, na mais elegante das hipóteses, um Dom Quixote à procura de um moinho de vento para lutar.


Mas isso não me afrontou ou sequer chateou. A livre expressão é algo caríssimo e pela qual tenho imenso apreço. Talvez, em alguns momentos, possa ter me exacerbado no calor do meu protesto contra a roubalheira oficial e, assim, meu amigo foi de grande valia ao alertar-me quanto a cautela em aferir credibilidade e pureza nas fontes que são a base do meu pensamento. De fato, jamais podemos nos descuidar disso sob pena de alcançarmos resultados desastrosos. Posso arriscar dizer que ao referir-se aos insatisfeitos com o atual governo de “a esquerda mal informada” pecou duas vezes. Uma porque esta discussão é inócua (ao menos para mim) e outra que se ela (a esquerda) existe podemos ter absoluta certeza de que está no governo a começar pelo seu Chefe máximo.


A grande imprensa, de fato, tem o péssimo hábito que denunciar e alongar as matérias que a interessam de um jeito ou de outro. O bondoso BNDES vendeu para o HSBC, sem concorrência, uma carteira de créditos pendentes do extinto Banco Bamerindus avaliada em R$ 650 milhões por apenas R$ 8,3 milhões o que representa 1,28% do montante. Isso é um exemplo sólido de patifaria e cumplicidade dos veículos de informação em obscurecer o fato. Não há meio disponível ao meu alcance para amenizar a safadeza, meu caro amigo. Não me parece justo ou minimamente aceitável, caso teve a intenção, rotular-me como rebelde inconseqüente, contestador inveterado, inconformado, esquerda mal informada ou qualquer outra coisa. E, afinal, quem refresca rabo de pato é lagoa.


CELSO BOTELHO

04.03.2009